Já é de costume as mães de primeira
viagem quererem saber tudo que está acontecendo com seu corpo e acompanhar todo
o desenvolvimento do bebê nos mínimos detalhes. Pelo que percebi, do segundo
filho em diante o assunto já não é mais novidade, e os estudos embriológicos de
internet ficam esquecidos.
No meu caso, somo a formação de
bióloga à minha vontade louca de saber tudo que está acontecendo lá dentro. Há
poucos meses lecionei sobre o tema com meus alunos e agora resolvi retomar as
lições de embriologia. Logo que descobrimos, apenas com 3 semanas completas de
gestação (5 se contada a data da última menstruação), fizemos a primeira ultra.
A médica de antemão já avisou que não seria muito emocionante por estar no
estágio inicial. Tecnicamente nosso bebê estava na fase de blastulação, o que
na prática aparecia na tela como uma bolotinha, medindo poucos milímetros.
Agora, com 4 para 5 semanas,
nossa bolotinha já está desenvolvendo
o tubo neural, responsável pela formação do sistema nervoso, e órgãos
fundamentais como o coração. Já temos um embrião, que por enquanto mais parece
um girininho.
Imersa nesse universo,
experimentei as primeiras sensações de ser mãe. Na cartilha da maternidade, a
qual me parece que a maioria das mães seguem à risca, estão sentimentos como
amor incondicional, proteção, provimento e posse. Eles me vieram como uma enxurrada,
um puxado pelo outro até que se misturassem de uma forma indissolúvel.
Essa coisinha tão frágil que
carrego no ventre já provoca em mim um amor profundo, e sua fragilidade desperta
meus instintos de proteção. Já não saio correndo, não fico no sol quente,
procuro dormir bem e me cerco de cuidados o tempo todo. Sou a única pessoa
neste mundo capaz de lhe fornecer os nutrientes necessários ao seu
desenvolvimento. Então me alimento bem, mais em qualidade do que em quantidade,
evito porcarias e, mesmo com um certo enjôo, não deixo de comer a cada 3 horas.
Com tantos cuidados, a última das sensações
era inevitável. Essa noite, ao me dar conta com tanta clareza da fragilidade
desse ser, fui tomada pelo medo de perdê-la, o que também é bastante comum às
mães de primeira viagem. Mas foi com o medo da perda que me dei conta que já havia
sido infectada pelo sentimento de posse.
Nessa hora o Edu constatou que “a bolotinha já faz parte de nossas vidas aconteça o que acontecer”. Isso certamente me confortou e me permitiu exercitar a máxima de que não devemos criar os filhos para nós, mas para garantir que tenham condições de seguirem seu caminho. E assim fortaleço mais em meu coração a certeza de ser mãe do que a vontade de ter filhos.


